Como preservar os filhos na hora da separação


Por Juliana Falcão (MBPress)

Aceitar o fim de uma relação não é tarefa fácil para ninguém. Antes das coisas chegarem a este nível, houve uma série de ações e doações por parte do casal que subiu ao altar com intuito de compartilhar uma vida feliz e cheia de promessas.

E quando há crianças envolvidas nessa quebra de laços, é preciso ter cuidado para não feri-las, uma vez que elas normalmente não têm uma relação direta com a situação.

Por mais que o amor e a compreensão entre o casal cheguem ao fim, é preciso ter a consciência de que a saúde desse filhoprecisa ser preservada. "A relação entre esses pais pode ter acabado, mas em nome da criança e do amor a ela, é preciso manter o diálogo equilibrado", alerta a terapeuta infantil Daniella Faria.

A especialista garante que este momento não fácil para nenhuma das partes, mas a criança é a mais afetada. Por não ter o discernimento necessário para encarar a situação sem traumas, ela sofre tanto ou até mais do que os pais. "A intensidade desse sofrimento vai depender da postura dos pais, de como eles vão se relacionar com o filho a partir dessa nova condição de vida".

Em casos de separação amigável, a criança é considerada a peça mais importante e todos passam com leveza por essa fase. Há casos de crianças que até acham legal essa nova condição de ter duas casas, dois quartos. Mas quando esse desenlace é conturbado, o filho pode sofrer com asíndrome da alienação parental, que é quando um genitor passa a criticar o outro, deixando o filho no meio de um fogo cruzado. "Nesse caso ocorre uma inversão de papéis. A criança entra em estado de alerta, deixando de viver sua vida para cuidar do pai ou da mãe. Ela presta atenção em situações que não são da alçada dela", explica Daniella.

Ana Pozza, psicóloga e psicoterapeuta familiar, revela que há casos de filhos que passam por este problema de alienação parental e sentem um vazio de identidade, por terem crescido com uma imagem do pai ou da mãe que não era verdadeira. "Numa separação, o prejuízo maior é afastar um convívio de um dos pais. É preciso que o casal tenha maturidade para lidar com a raiva e colocar o filho em primeiro lugar".

Para minimizar os traumas, o correto é que os pais pensem no bem-estar da criança. É preciso trilhar um caminho de amor por esse filho. Ela vai se formar, casar, ter filhos, e pai e mãe precisam estar equilibrados para compartilharem esses momentos tão importantes. "Os problemas conjugais precisam ser tratados de maneira paralela, mas o bem-estar da criança precisa ser compartilhado. Os papéis de pai e mãe não podem deixar de existir", aconselha a terapeuta infantil.

Ana acredita que, durante o processo de separação, se faz necessário o apoio psicoterapêutico. "Esta é uma experiência extremamente penosa. A semelhante à perda de um ente querido. E nessa hora os pais se deprimem e a criança fica sem cuidados", explica.

A especialista diz ainda que a idade da criança não influencia no grau de sofrimento. Segundo ela, tudo depende do momento em que a família está vivendo. "Para um filho que foi abusado sexualmente ou que presencia constantes brigas dentro de casa, a separação é um alívio. Porém, aquele que tem contato frequente com os pais, vai sentir muito mais o fim do casamento."

Não é possível traçar o futuro de uma criança que vivencia a separação dos pais. Porém um processo de desenlace mal resolvido pode incutir no filho a crença de que casamento não dá certo e que nunca se deve brigar. "Ao mesmo tempo, a história dela, a partir desse fato, pode contribuir para o amadurecimento das escolhas afetivas, tornando-a mais cautelosa na escolha de um parceiro", comenta Ana.

Mudança de comportamento

Em muitos casos, a criança que vivencia a separação dos pais torna-se tensa, triste, insegura,agressiva e pratica a inversão de papéis, uma vez que ela ingressa no mundo adulto quando ela deveria ser cuidada por ele. "Às vezes, o filho pode regredir no comportamento. Volta a fazer xixi na cama, reduz seu desempenho escolar e se apega demais à mãe", explica Ana Pozza.

Entretanto, independe dos sintomas, é muito errado tratar essas mudanças de comportamento como um problema. "Isso nada mais é do que um pedido de ajuda, pois é a forma que a criança encontra para expressar o que está sentindo. E quem identifica essas atitudes deve saber encará-las como um caminho que pode desvendar as necessidades desse filho", afirma Daniella.

Independente dos motivos que levaram à separação, o grande desafio desses genitores é manter o foco na saúde integral dos filhos. "Antes de iniciar uma briga, pense na criança. Poupe-a dessa situação. Ela não pode viver essa desconstrução dos pais", ressalta a terapeuta. "O processo de dissolução do casamento pode gerar brigas durante um longo período de tempo. E se o casal tiver a consciência de que o filho é a parte mais valiosa dessa relação, os desentendimentos tendem a se encurtar".

Ana Pozza lembra ainda que a criança não pode ser excluída da situação. Se os pais traçam o estereótipo da família feliz na frente dela e de repente anunciam uma separação alegando brigas e incompatibilidades, vão dar a ela a impressão de que viveu uma farsa. Isso porque, mesmo que os pais não se abram para o filho, ele sente que existe algo errado. Enquanto o adulto é capaz de nomear sentimentos e coisas, a criança usa a percepção sensorial para entender o mundo à sua volta.

"Obviamente há assuntos que só pertencem ao casal, mas a criança precisa estar ciente das mudanças. Abra o jogo, diga a ela, numa linguagem adequada, que vocês estão passando por dificuldades, mas que estão tentando resolvê-las", sugere a psicóloga. "O errado é incluí-la no processo com o objetivo de fazer com que ela resolva, faça a mediação do conflito. É o caso da mulher que tem receio de lidar com o marido a sós e decide desabafar na frente da criança. Isso é muito prejudicial."

Para Daniella, todo tipo de agressão ou briga dentro de um ambiente familiar gera um grande estrago nos adultos e nas crianças. Mas na hora da separação, a terapeuta ratifica que é necessário colocar os filhos em primeiro plano. "Ela precisa ter a garantia de que a separação é entre pai e mãe e não entre pais e filhos. Os genitores podem mudar seus valores por conta da separação, mas não deixar de cuidar dos filhos que é a parte mais importante. Se os casais começarem a pensar dessa forma, o diálogo entre pai e mãe vai se manter, uma vez que o amor pela criança passará a ser a base dessa relação".

A criança e o universo lúdico




Cabe esclarecer que muitas vezes o significado dos jogos que a criança pratica apresenta um caráter defensivo e projetivo da sua realidade interior. É proposta pela psicanalista Melaine Klein uma similitude entre a atividade lúdica infantil e o sonho do adulto, e as verbalizações da criança ao brincar e a associação livre. Ou seja, a criança se apossa do universo lúdico para alívio de tensão/ satisfação de seus desejos e para domínio da realidade traumática através de elaborações projetivas. Na brincadeira se exteriorizam os jogos internos, sendo essencialmente um meio de prazer pela manipulação da angústia, ou seja, uma descarga pulsional. Dessa forma, a brincadeira é passível de interpretação e, assim, colocada como uma técnica a ser utilizada para alargar os limites da possibilidade de verbalização da criança e acompanhar a precariedade do uso da palavra e a tendência à ação, características do comportamento infantil. Assim, o brincar é uma alternativa de comunicação dos conflitos e desejos da criança. É uma linguagem e, portanto, algo a ser “escutado“.

Amor e Ódio

"Muitos sentimentos são só o reverso do amor e da dor. O ódio é somente a outra face do amor. Ele surge quando alguém é ferido em seu amor. Mas se disser: "Eu te amei muito e isso me machuca demais", então não existe mais espaço para o ódio. Com o ódio, a pessoa perde exatamente aquilo que realmente deseja."

Bert Hellinger, em "Constelações Familiares"

Raiva

"A raiva primária surge quando sou atacado. Essa raiva me dá forças para eu me defender e por isso ela é boa. Ela me torna capaz de agir. No entanto, a raiva mais intensa que surge é fruto de fantasias. Fica-se com raiva mas não age. (...)

A raiva também tem a ver com um direito que não reivindico. Se não reivindico o direito que tenho, fico com raiva. Essa raiva também surge como substituto para a própria ação.

(...)Os sentimentos decisivos são, no fundo, a dor e o amor. Em vez de encarar a dor, eu talvez fique com raiva. Assim, por exemplo, alguém lembra-se durante a terapia que apanhava quando pequeno e sente então raiva do agressor. Se sente raiva, não sente a dor. Entretanto, se ele disser: "isso realmente me magoou", passa para um outro nível, mais introspectivo e muito mais forte. Isso penetra mais fundo do que dizer com raiva: "você vai me pagar!"

Bert Hellinger, em "Constelações Familiares"

Inveja

"Inveja significa querer ter algo sem querer pagar seu preço.

Em vez de trabalhar com a inveja, prefiro conduzir o cliente a um ponto em que ele mesmo possa decidir se está disposto a pagar o preço total pelas vantagens e pelo sucesso."

Bert Hellinger

Vínculos Familiares

"A família dá vida ao indivíduo. Dela provém todas as possibilidades e limitações. (...) Não existe nada mais forte do que a família.
(...)
"... Quem combate o próprio pai se tornará forçosamente igual a ele. E quem combate a mãe se tornará forçamente igual a ela. (...) Muitos distúrbios e doenças se originam do conflito que resulta dessa recusa em reconhecer os vínculos familiares.
(...)
"O amor sempre existe, só preciso procurá-lo. Quando uma pessoa está zangada com os pais, eu encontro esse ponto, ajudo a criança no cliente a concluir o movimento de entrega em direção à mãe ou ao pai daquela época. Então a luta cessa e todos respiram aliviados, inclusive os pais. Eles podem voltar a se dedicar ao filho e o filho a eles."

Bert Hellinger, em "Constelações Familiares - O Reconhecimento das ordens do amor

Terapia Relacional Sistêmica

"A consciência do próprio funcionamento é o primeiro e imprescindível passo para a mudança. Qualquer mudança pessoal ou relacional pressupõe que o sujeito esteja enxergando seu próprio funcionamento: o que faz, como faz, para que faz. Esse é o foco da Terapia Relacional Sistêmica."

Solange Rosset

A verdade seja dita

"Uma verdade fundamental que não é dita dá origem a neuroses posteriores. (...) Chega um momento em que os pais percebem que a relação que têm com o filho é profundamente modificada quando lhe explicam precisamente o que lhe diz respeito, a ele, naquilo que contam da vida deles e não lhe contaram até então: verdadeira revolução, tanto para os pais como para todo ciclo familiar. Daí em diante, a criança "ouve" o que lhe diz respeito. A partir do momento que puseram em palavras o sofrimento da mãe, suas decepções no nascimento, as dificuldades familiares, a criança já não precisa manifestar mal-estares. Acabaram-se xaropes para dormir, recusas alimentares. Faltava-lhe acima de tudo a humanização proporcionada pelas palavras verdadeiras de luto ou de sofrimento de que ela participou desde o início de sua história de sujeito desejante."

Françoise Dolto
"Violência sem Palavras", em "As Estapas Decisivas da Infância"

Cabe aqui salientar que um processo psicoterapeutico familiar otimiza este processo, não com um, mas alguns encontros que oportunizam esclarecimentos e intimidade, promovendo o crescimento saudável, a autonomia da criança e a harmonização familiar . Não se trata de despejar em cima da criança suas angústias, mas poder nomear o que acontece, situação pela qual a criança naturalmente vivencia no cotidiano familiar, mas muitas vezes não se fala a respeito, permanecendo todo o conteúdo não dito sob a forma de angústia, fobia ou ansiedade a todos os membros da família, em particular a criança que ainda não possui recursos próprios para poder elaborar a vivência. Complementando com F. Dolto: "Dar nomes, aí está. A criança necessita que tudo seja dito."

Família, Amor, Trabalho


"Quando os filhos forem criados igualmente por homens e mulheres, as meninas e os meninos verão as mulheres trabalhando lado a lado com os homens, fora de casa, não como uma privação, mas como uma extensão do carinho e da cooperação entre os sexos. A tensão heterosexual no mercado de trabalho, nascida em grande parte das antigas tradições de desigualdade e dominação sexual, será substituída por amizades heterossexuais não-sexualizadas, relacionamentos de igualdade encorajando a intimidade, que apóiam, em vez de ameaçar, a vida familiar. Psicológica e filosoficamente, os jovens pais de hoje estão estressados e gostariam de mudar a maneira de viver a vida. O terapeuta familiar tem uma oportunidade de ajudá-los a perceber que os papéis determinados pelo gênero são parte do estresse entre eles, que as escolhas de ser diferente podem dar certo, que brigar por sua família no trabalho acabará fazendo uma diferença na política das corporações e do governo.

O resultado ótimo deste estágio do ciclo familiar não é simplesmente o de ligar os adultos, como pais, aos filhos. É o de intensificar o relacionamento íntimo do casamento - ajudar homens e mulheres a realizar seu potencial criador na idade adulta jovem e média, e a assumir o seu lugar na família de maneira plena, possivelmente ampliando a vida. É o de unir os sexos e as gerações no presente e no futuro, e o de colocar o amor numa posição igual à do trabalho."

Jack O. Bradt

Referência:
BRADT, J. O. Cap 11: Tornando-se Pais: Famílias com Filhos Pequenos. p. 222. In: CARTER & McgOLDRICK. As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar. Porto Alegre: Artmed, 1995

Adolescência: dilemas e oportunidades


O período da adolescência é marcado por uma série de profundas mudanças, que atingem não apenas o adolescente, mas toda a família envolvida no processo. Este período, geralmente concebido como sinônimo de crise, angústia, perturbação e turbulência, também pode ser uma oportunidade de crescimento, se observado numa perspectiva mais ampla, levando-se em conta a complexidade da vida familiar.

Se compreendermos a família como um sistema em constante transformação, entenderemos a adolescência como um momento especial que impulsionará a família na direção de novas configurações e novos padrões de interação. Sob o ponto de vista sistêmico, portanto, a adolescência caracteriza-se como um período de transformação e reorganização das relações familiares.

João Davi Cavallazzi Mendonça, Psicólogo e Terapeuta Familiar
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Intimidade




"Intimidade é um relacionamento carinhoso sem fingimento, uma revelação sem risco de perda ou ganho por qualquer uma das partes. É dar e receber, uma troca que aumenta porque facilita a consciência dos eus, de suas diferenças e semelhanças. É uma elaboração discriminante, encorajadora, das facetas de cada pessoa. Ela cria e sustenta o sentimento de pertencer a, ao mesmo tempo em que percebe a singularidade de cada indivíduo. A intimidade encoraja a continuidade. Ela é a energia sustentadora do movimento humano através do tempo. Ela permite que não pertençamos apenas ao presente, mas também àqueles que vieram antes e àqueles que vêm depois."

Jack O. Bradt

BRADT, J. O. Cap 11: Tornando-se Pais: Famílias com Filhos Pequenos. p. 212-213. In: CARTER & McgOLDRICK, As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar. Porto Alegre: Artmed, 1995

Ser Pai/Mãe




"A paternidade, quer do pai ou da mãe, é a mais difícil tarefa que os seres humanos têm para executar. Pois pessoas, diferentemente dos outros animais, não nascem sabendo como serem pais. Muitos de nós lutam do princípio ao fim."

Karl Menninger

Bert Hellinger

A Alienação Parental, tema cada vez mais discutido no meio jurídico, ou mesmo psicojurídico, toma uma dimensão diferenciada por Bert Hellinger. Impactante e interessante, resolvi aqui postar. Acompanhando situações jurídicas como perita judicial e também como assistente técnica, o texto de Hellinger se mostrou muito interessante, abrindo um novo olhar sobre a questão, provocando a elaboração dos sentimentos envolvidos nesta questão familiar tão delicada. Isto porque a tendência em casos de Alienação Parental é a situação se arrastar por anos, provocando muito sofrimento a todos os envolvidos, em especial às crianças que se vem no meio de uma guerra entre os pais.

"Bert Hellinger, em Um Lugar para os Excluídos, retoma com Gabriele Ten Hövel, seus diálogos iniciados há 10 anos com a publicação de "Constelações Familiares". O autor narra com detalhes fatos inéditos de sua vida. Ao mesmo tempo, esclarece o caminho que o levou a suas principais descobertas, relata a evolução recente de seu trabalho sistêmico e responde às críticas levantadas ao seu trabalho no espaço cultural alemão."

"Os densos diálogos em "Um Lugar para os Excluídos" iniciam o leitor nos cinco círculos do amor e aprofundam a visão de Hellinger sobre temas importantes como o equilíbrio nas relações humanas. Consciência e culpa, reconciliação e paz."

Segue trecho do Livro de Bert Hellinger em parceiria com Gabriele Ten Höevel, em "Um Lugar para os Excluídos":

"O pai não precisa lutar mais"
Sobre a alienação dos filhos


- O senhor soube da sentença recente do Tribunal da Constituição Federal que o marido que duvida de sua paternidade não tem o direito de pedir um teste genético sem o conhecimento da mulher? O que o senhor acha disso?

A idéia de que com isso se protege a família é bem estranha.

- Afirma-se que essa medida protege o direito de personalidade da criança.

E, o direito de personalidade da mulher contra a realidade. Essa é uma profunda injustiça contra todos. É uma idéia insensata e, ainda por cima, foi convertida em lei! Eu me pergunto: como é que a criança ficará mais tarde?
Como filha de outro pai?

Principalmente quando souber que aquele que paga por ela não é o seu verdadeiro pai. Como se sentirá ela, como se sentirão seus filhos? Não se pensa absolutamente nas consequências. O teste é o único recurso do pai para confirmar sua paternidade. Às vezes é preciso brigar. Seria o último recurso para se obter justiça.

- Como pode encontrar paz um homem que foi assim enganado?

Ele deve dizer à criança: "É por você que faço isso". Então fica em paz, é
livre e preserva sua dignidade.

Seria um grande feito.

Certamente, mas seria a solução.

- Por outro lado, existem muitos pais que são enganados sobre sua paternida de. Às vezes são também mães que perdem os seus filhos. Um dos genitores toma os filhos e os aliena do outro, conscientemente ou não. Isso chega a um ponto em que a criança não quer mais ver o outro genitor - e aquele que conserva as crianças apoia isso, às vezes também o aplaude.

A criança sempre se decide da forma que convém àquele que tem o poder sobre ela. Ela não pode proceder de outra maneira, senão estaria em peri go, mas ela fica mal e guarda raiva por muito tempo contra a mãe ou contra o pai, se foi ele o responsável por sua alienação. Quem aliena a criança não ganha nada com isso, mas muitas vezes isso ainda não passou pelo sofrimento. Há coisas que só podem mudar depois que foram bastante sofridas.

- Os pais que lutam contra isso ficam, às vezes, muito desesperados. O que o senhor diz a eles?

Que digam à criança: "Estou sempre presente para você - isso você precisa saber - mesmo que eu não possa ver você agora. Continuo sendo seu pai e estou aqui para você. Você pode confiar em mim." A criança se tranquiliza,e o pai já não precisa lutar, apenas aguardar. Ao mesmo tempo, ele diz à criança: "Eu concordo com a sua mãe e concordo com o destino que ela é para você. Ela continua sendo a mãe certa para você e eu a respeitarei sempre. Você pode ficar com sua mãe enquanto ela precisar e enquanto você precisar dela." Então a criança fica aliviada.

- Mas o senhor mesmo diz que isso é difícil para a criança. Ela carrega um grande peso. Isso exige que se lute, para poupar-lhe coisas más.

A luta não leva a nada. Para a criança é difícil, não resta dúvida, mas ela cresce com isso. Não se pode lamentá-la. Quando alguém de fora vem e diz: "Pobre criança!" isso é mau para ela. A criança não é pobre, pois ela tem esses pais e, aconteça o que acontecer, ambos pertencem ao seu destino, ao seu desafio, mesmo ao peso que ela carrega - até que ela aceite isso e então cresça nisso e para além disso.

- Isso é muito difícil para a maioria dos pais homens. Soa para muitos de modo fatalista. Eles perguntam: "Devo simplesmente assistir a como se rouba a infância de meu filho?". E eles lutam.

A luta os coloca no mesmo nível da mulher. A criança fica esmagada no meio disso. "A criança me pertence!"? - Não, mas "Você não pertence a mim, você pertence a si mesma, mas eu sou o seu pai. Não reivindico você, mas você pode me ter. Para mim você é meu filho e eu sou o seu pai." Essa é uma solução maravilhosa e simples, boa para todos.

- E quando é muito difícil para os pais ficarem contentes com esta solução?

Então ainda podem dizer à criança: "Tenho ainda algo importante a lhe dizer: eu amei muito a sua mãe."

- O senhor exige muito das pessoas.

Isso é amor, amor verdadeiro.

Mais esclarecimentos sobre Alienação Parental

“(..) muitas vezes a ruptura da vida conjugal gera no cônjuge o sentimento de abandono, de rejeição, de traição, surgindo uma tendência vingativa muito grande. Quando não consegue elaborar adequadamente o luto da separação, desencadeia um processo de destruição, de desmoralização, de descrédito do ex-cônjuge. Ao ver o interesse em preservar a convivência com o filho, quer vingar-se, afastando este do genitor.

Para isso cria uma série de situações visando a dificultar ao máximo ou a impedir a visitação. Leva o filho a rejeitar o pai (ou a mãe), a odiá-lo (a). A este processo o psiquiatra americano Richard Gardner nominou de "síndrome de alienação parental": programar uma criança para que odeie o genitor sem qualquer justificativa. Trata-se de verdadeira campanha para desmoralizar o genitor. O filho é utilizado como instrumento da agressividade direcionada ao parceiro. A mãe/pai monitora o tempo do filho com o outro genitor e também os seus sentimentos para com ele.

A criança, que ama o seu genitor, é levada a afastar-se dele, que também a ama. Isso gera contradição de sentimentos e destruição do vínculo entre ambos. Restando órfão do genitor alienado, acaba identificando-se com o genitor patológico, passando a aceitar como verdadeiro tudo que lhe é informado."

Maria Berenice Dias, desembargadora, em http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8690

Indicação de Livro 1: Demian, Hermann Hesse

Demian, livro escrito em 1919 pelo autor Hermann Hesse, é um de seus mais importantes, pois é o primeiro daqueles que o levará a escrever sua obra maior Der Steppenwolf (O Lobo da Estepe) e Sidarta, a obra intermediária.

O livro é a autobiografia de Emil Sinclair, alguém que nasceu em um lar harmonioso e envolto pelo conforto da boa educação e dos bons costumes. A grande guinada em sua vida confortável e burguesa se dá quando, por conta de uma mentira que cai nas mãos de Franz Kramer, “um rapaz dos seus treze anos,corpulento e grosseiro”(p.27) que ao chantagear o menino Emil acaba por colocá-lo de frente com um mundo diferente daquele ao qual sua família pertencia, o mundo ideal, para levá-lo ao mundo real.

Para Sinclair este episódio foi “a primeira rachadura nos fundamentos sobre os quais descansara a sua infância e que o homem tem que destruir para poder chegar a si mesmo”(p.35). “Desses acontecimentos que ninguém percebe,é que se nutre a linha axial interna de nosso destino”(p.35).

Sua vida de menino toma novo rumo quando conhece Max Demian. A importância deste é tão grande que vai influenciá-lo por toda sua vida.

É importante destacar a pessoa de Demian: ele “era totalmente diverso de todos e possuía uma marca pessoal e singularíssima que fascinava”(p.46). Era um jovem que emanava uma sabedoria, “milenária, de certo modo alheio ao tempo, selado por idades diversas da que nós vivemos”(p.70). Demian nunca desaparecia por completo do horizonte de Sinclair.

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo.”(p.144). A grande mensagem deste livro é esta. E destruir um mundo não quer dizer violência, não, nos fala de romper com o passado e as tradições, de desligar-se do meio exageradamente cômodo e seguro da infância para começar então a busca pela razão de existir.

A história do amadurecimento de Sinclair não diz respeito a uma aristocracia intelectual; não se refere a pessoas que se julgam cultas e superiores o bastante para não se relacionarem com as outras pessoas, e sim de exaltar o indivíduo consciente de seu próprio caminho. Exalta o homem que não vive o “acaso”, mas que é senhor da sua vida. “Quando alguém encontra algo de verdadeira necessidade, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa, seu próprio desejo e sua própria necessidade a conduzem a isso”(p.119).

“O impulso que te faz voar é o grade patrimônio humano, comum a todos”(p.127). Esse impulso,esse voar é a coragem que cada um deve ter para ser um homem verdadeiro,conhecedor de si.

Muitos por achar perigoso “renunciam de bom grado a voar e preferem caminhar,pela escala burguesa,apoiados nos preceitos legais”(p.127).

A vida é uma longa caminhada para dentro de si mesmo. Foi assim que viveu Emil Sinclair. Sempre lutando contra as influências externas que querem nos colocar no rebanho. Ele rebelou-se contra a unifomização e contra todos os processo de submissão do homem.

HESSE,Hermann. Demian. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2005. 187p.
(Retirando de http://nabilaraiana.blogspot.com/)